São 30 quilômetros onde os buracos, o barro e a lama predominam a única rodovia que liga Roraima ao restante do Brasil. No trecho da BR-174, que fica dentro do território indígena Waimiri Atroari, a situação é de abandono. O asfalto deu lugar aos atoleiros e os motoristas que precisam viajar de Boa Vista para Manaus, capital do Amazonas, temem pela própria vida: “o risco de vida é muito grande, a gente passa por isso se apegando a Deus”, diz um dos caminhoneiros.
O trecho crítico se inicia na ponte que corta o rio Alalaú, logo na divisa entre Roraima e Amazonas. O g1 percorreu o trajeto nessa quarta-feira (8) e conversou com pessoas que enfrentaram o barro e a lama do caminho. Sem asfalto, o trajeto que poderia ser feito em meia hora tem demorado até duas horas. (Veja o vídeo acima).
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Divisa entre o estado do Amazonas e Roraima com estrada coberta por lama — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Os longos caminhões com cargas pesadas — que passam quase a todo o momento — se desdobram para conseguir atravessar o trecho. Para enfrentar o lamaçal, caminhoneiros precisam diminuir drasticamente a velocidade, e usar uma manobra chamada por eles de “meia-banda”, que consiste em apoiar todo o caminhão em apenas um lado da pista — o que pode resultar no tombamento.
Caminhoneiros reclamam que pela condição da rodovia, dobrou o tempo para concluir o trajeto de Boa Vista até Manaus. Antes, 12 horas eram suficientes para a viagem. Agora, sem asfalto, alguns passam um dia inteiro na rodovia.
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Caminhão precisando fazer “meia-banda” para passar por lamaçal na BR-174 — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
É pela BR-174 que chega a Roraima alimentos e combustível consumidos no estado. E é também por ela que toda produção agrícola do estado é escoada.
A falta de infraestrutura na BR-174 é um problema antigo. Em 2021, o g1 mostrou que a rodovia tinha trechos sem asfalto, sem acostamento e muitos buracos na pista. A rodovia federal é a única forma de sair ou chegar a Roraima por via terrestre, o que não deixa outra alternativa a não ser enfrentar as adversidades do percurso.
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Ponte sobre o rio Alalaú, na divisa de Roraima com o Amazonas, onde trecho da BR-174 começa a piorar — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Quando a reportagem percorreu o trajeto, trabalhadores do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) estavam em pontos específicos do trecho com máquinas pesadas espalhando pedras na lama. Questionados, eles disseram que começaram as obras nesta quarta e que estavam limpando e apenas “tampando os buracos” para resolver problemas imediatos.
Logo após a ponte do rio Alalaú há duas placas do Dnit com informativos sobre as obras. As duas — uma seguida da outra — informam datas diferentes de início e de entrega das obras. Enquanto uma indica que a estrada deveria já estar pronta no dia no dia 11 de dezembro de 2022, a outra adia essa entrega em quase um ano: 20 de novembro de 2023.
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Placas de obras do Dnit em BR-174, uma atrás da outra, se contradizem em datas — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
O Dnit informou que as obras não são provisórias, mas sim permanentes e a previsão de término é, de fato, dia 20 de novembro de 2023. Eles informaram que a outra placa deve ser removida pois refere-se a um contrato anterior que foi rescindido por baixo desempenho da empresa contratada.
Prejuízos e risco de vida
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Lama predomina estrada e atrapalha fluxo na BR-174 — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Medo de tombamentos, prejuízos com danos aos veículos ou às cargas e até de acidentes graves e atrasos significativos na viagem. As queixas dos motoristas que precisam enfrentar a rodovia são comuns e o pedido é um só: que a BR-174 passe por uma manutenção.
O caminhoneiro Natanael Taveira, de 40 anos, está há 10 anos fazendo frete entre Boa Vista e Manaus. Carregando agrotóxico no caminhão, ele disse que a última vez que viu a rodovia em condições “trafegáveis” foi em 2014. Ele se queixa do tempo da viagem.
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Natanael Taveira, caminhoneiro de 40 anos, teme pela própria vida enquanto anda pela BR-174 — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
“A viagem era feita em 12 horas. Hoje, a gente faz em mais de 20 horas. Absurdo. Nesse percurso que aumenta com o estado da rodovia, aumenta também o combustível, aumenta o frete. Fica tudo mais caro para o consumidor final. A rodovia está intrafegável. Tem risco de tombamento, da gente perder a própria vida em um caminhão pesado”, disse ele.
Quando conversou com a reportagem, a esposa de Natanael havia acabado de mandar mensagem preocupada com ele.
“A rodovia não está dando condições para a gente trabalhar. O risco de vida é muito grande, a gente passa por isso se apegando a Deus para não tombar uma carga e não se ferir. Ainda agora minha esposa me mandou mensagem perguntando se eu estava bem pois é sempre um desafio você atravessar aquele trecho indígena”, disse o caminhoneiro.


