Chamado de ‘miliciano’, Jalser Renier acusa relator de cassação de ‘propineiro’ e provoca confusão na ALE-RR

Foto: Caíque Rodrigues/g1
Embate com troca de ofensas precisou ser apartado por pessoas que estavam no plenário.
Fonte: G1
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Categoria: Extremo Norte TV

Alvo de um processo de cassação de mandato, o deputado Jalser Renier (SD) causou uma confusão na sessão desta quarta-feira (23) na Assembleia Legislativa de Roraima (ALE-RR). Ao ser chamado de “miliciano” por Jorge Everton (sem partido), relator do processo, Renier rebateu na tribuna e acusou o colega de parlamento de ser “propineiro”.

Quando Jalser Renier encerrou a fala e saiu do púlpito, houve discussão, troca de ofensas entre os dois e o embate precisou ser apartado por outros deputados, servidores e policiais militares da segurança da Casa que estavam no plenário.

A confusão ocorre um dia após a Comissão de Ética da ALE-RR aprovar a perda do mandato de Jalser Renier com base em relatório produzido por Jorge Everton.

Jorge Everton se pronunciou na tribuna da Casa nesta quarta e afirmou que durante o rito processual foi desrespeitado por Jalser e disparou: “Você é um deputado miliciano”, acrescentando que Jalser “é um machão que só bate em mulher”, ao se referir ao caso de 2018 quando o parlamentar invadiu uma rádio e xingou a ex-prefeita de Boa Vista, Teresa Surita quando ela dava entrevista.

“A tua história é uma mentira, Jalser. Eu tenho currículo, mas você tem ficha corrida. A Justiça dos homens lhe aguarda, apesar de que sempre falou que tem o Judiciário na mão”, disse Jorge Everton.

 

Diante do discurso, Jalser tentou interferir, mas foi contido pela Mesa-Diretora. O relator ainda ironizou: “Miliciano não aguenta quando a polícia fala” — Jorge Everton é delegado da Polícia Civil.

Após a fala do relator, Jalser solicitou o direito de resposta, que foi concedido. O deputado teve cinco minutos para se defender, mas usou o momento para disparar novas acusações.

Ele acusou Jorge Everton de “trair a esposa com uma mulher casada”. Isso causou reação imediata do relator, que respondeu “respeite minha família seu vagabundo, seu frouxo”.

“O deputado Jorge Everton, além de deselegante, ele é sem escrúpulos, ele usa os colegas, usa as redes sociais para dizer que é o cara […]. Agora, quando o senhor fala de família, não venha com pregação de moral de família, vá dar valor à sua mulher que você está trocando por uma mulher casada”.

Jalser também acusou o relator da Subcomissão de receber propina para votar a favor de sua cassação. “Eu só quero dizer que esse deputado é leviano, que desafia as pessoas, que recebe dinheiro e que é ‘propineiro”‘, disse.

À imprensa, o deputado Jorge Everton afirmou que as acusação de Jalser são “tentativas de intimidação com o objetivo de se livrar de um processo de cassação onde todos sabem da culpa dele”.

Está previsto para essa terça-feira (23) às 14h a deliberação do relatório com a Comissão de Ética. Após isso, o processo será enviado à Comissão de Constituição, Justiça e Redação Final. Após deliberação, encaminhará à Mesa Diretora para inclusão na Ordem do Dia para ser analisado e votado em Plenário. A reunião de cassação foi conduzida pelo presidente da Comissão de Ética, Coronel Chagas (PRTB).

Processo de cassação

A subcomissão foi definida no dia 11 de novembro de 2021 para julgar os pedidos de cassação contra Jalser.

Em novembro do ano passado, Renier enviou para a Subcomissão uma lista de testemunhas com 32 nomes entre políticos, empresários, blogueiros, um juiz federal e o próprio jornalista Romano dos Anjos, vítima do sequestro. A relação foi apresentada junto a defesa escrita do parlamentar.

No entanto, dos 32 nomes, apenas o policial militar e ex-segurança de Jalser, Hélio de Pinho Pinheiro, depôs. Os demais — o secretário estadual de Segurança Pública, coronel Edison Prola, o ex-delegado-geral da Polícia Civil de Roraima, Herbert Amorim, e a superintendente de Gestão de Pessoas da ALE-RR, Geórgia Amália Freire Briglia depuseram porque foram convocados pela Subcomissão.

O coronel Edison Prola, foi o primeiro a prestar depoimento. Prola iniciou dizendo que à época do crime, o então delegado-geral da Polícia Civil, o procurou pedindo para que o delegado João Evangelista saísse da liderança das investigações do sequestro e que isso parecia ser motivado por “motivos pessoais”.

Herbert Amorim foi a segunda pessoa a depor. Em seu depoimento, ele negou as afirmações de Edison Prola, mas disse que foi intimidado por Jalser Renier para barrar o inquérito que investigava o sequestro do jornalista.

Jalser Renier está no poder há 27 anos. Político considerado polêmico, o parlamentar protagonizou outros escândalos no estado, como o “Escândalo dos Gafanhotos” e as operações “Royal Flush” e “Cartas Marcadas”.

Suspeito do sequestro

Renier é suspeito de ser o mandante do sequestro do jornalista Romano dos Anjos e, por esse motivo, responde a um processo disciplinar por quebra de decoro na Comissão de Ética da Ale-RR.

O sequestro de Romano ocorreu na noite do dia 26 de outubro de 2020. Ele foi levado de casa no próprio carro. O veículo foi encontrado pela polícia queimado cerca de uma hora depois.

Romano teve as mãos e pés amarrados com fita e foi encapuzado pelos suspeitos. Ele passou a noite em uma área de pasto e dormiu próximo a uma árvore na região do Bom Intento, zona Rural de Boa Vista. Na manhã do dia 27, começou a andar e foi encontrado por um funcionário da Roraima Energia.

As investigações do Ministério Público de Roraima sobre o sequestro do jornalista indicam que Jalser Renier usou do cargo de presidente e da estrutura da Casa para ordenar o crime. A Operação Pullitzer, que investiga o caso, também apontou a participação no crime de oito policiais militares e um ex-servidor da Assembleia.

Ele é suspeito de oito crimes: violação de domicílio qualificado; cárcere privado e sequestro qualificado; roubo majorado; dano qualificado; constituição de milícia privada; organização criminosa; tortura-castigo qualificada; e obstrução da justiça.