Falta de transporte escolar prejudica alunos na Região do Bonfim, ‘Não conseguirão fazer uma prova’ afirma tia de um aluno

Foto: Roraima em Tempo
A 3ª reportagem da série ‘Como anda a Educação?’ mostra a preocupação de pais de alunos prejudicados pela falta do serviço
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Categoria: Extremo Norte TV

Depois de superarem os impactos causados pela pandemia na educação, os alunos do interior de Roraima enfrentaram um novo grande desafio: chegar até as escolas. A falta do transporte escolar prejudicou milhares de estudantes que precisam do serviço para estudar.

A tia de três alunos da Escola Estadual São Francisco, em Bonfim, foi uma das pessoas que procurou a reportagem, para denunciar a dificuldade das crianças.

O governo retomou as aulas presenciais em fevereiro deste ano. Mas ela contou que que os sobrinhos estavam sem ir às aulas por falta de transporte escolar.

A mulher relatou que os sobrinhos precisavam se deslocar da vila onde moram por 18km até a Vila São Francisco para conseguir as atividades escolares.

No dia 29 de abril, ela relatou que o governo ainda não tinha regularizado o serviço. Dessa forma, os responsáveis pela escola estavam levando o material até a casa dos alunos. Por outro lado, o problema ainda era o mesmo: a dificuldade no aprendizado.

O ensino remoto foi implementado pelo governo como método de emergência durante a pandemia, mas por falta de estrutura e do transporte escolar, seguiu com o formato em alguns escolas estaduais.

Na primeira reportagem da série Como anda a Educação? a reportagem mostrou os prejuízos no aprendizado devido ao estudo remoto.

“Os alunos precisam ter esse contato ‘aluno e professor’, pois eles precisam dessa explicação. É fácil fazer as atividades em casa pelo fato de ter internet. Os alunos pegam as respostas, mas não aprendem porque não tem a explicação do professor e não tem aquele incentivo de o aluno ter que aprender. Quando esses alunos forem à escola, eles não conseguirão fazer uma prova sequer, porque estudando em casa não aprendem nada”, disse.

À época da primeira denúncia, o governo disse que “o serviço de transporte escolar estava suspenso por decisão judicial”. Contudo, não explicou o motivo de a Justiça ter suspendido a contratação.

Afirmou, ainda, que enquanto não normalizava o serviço, as escolas com alunos dependentes do transporte público seguiriam com aulas remotas.

Promessa não cumprida

Outro relato de falta de transporte é de Maria Lenir, moradora da vicinal 07, região do Apiaú, em Mucajaí. Os filhos dela estudam na Escola Estadual Venceslau Catossi.

No dia 30 de março, ela entrou em contato com a reportagem para denunciar a situação. Na época, ela relatou que o Governo do Estado informou que os veículos seriam enviados em fevereiro para contemplar os alunos da região. Entretanto, o serviço só foi regularizado no dia 9 de maio.

“Não tem transporte escolar e, pelo visto, não vai ter, porque até agora nada. A gente vai na escola, não tem transporte. Os funcionários não podem nem fazer nada, não é? Porque quem pode lutar pelos transportes para os alunos é o governador e até agora nada de ele se manifestar”, relatou na época.

Preocupação

Conforme a mulher, a filha Roberta, de 15 anos, estava com dificuldades em matemática e como não podia frequentar as aulas presenciais, ela disse estar preocupada com o aprendizado da adolescente.

“A Roberta depende muito da matemática, ela tem muita dificuldade em matemática e outra matéria. E e aí como vamos manter o aprendizado dos nossos filhos em casa? Não tem como, tem que ser na sala de aula”, falou.

Ela contou que o filho Eduardo, de 18 anos, deveria se formar este ano, mas pela falta do transporte, ela teme ter prejudicado o futuro do jovem.

“O Eduardo esse ano já era para terminar. E agora como é que vai ser? Como é que termina? Está estudando só em casa. Se dentro de sala os alunos já não entendem direito, e em casa?”, indagou.

Ela falou ainda sobre a falta de internet na residência onde moram. Os filhos precisam se deslocar para outro local para ter acesso ao recurso.

“Eu levo ela para estudar na casa de um colega que tem internet, que é na mesma vicinal onde a gente mora. A internet não é na minha casa, aí fica difícil”, lamentou.

Estradas

Ainda conforme Maria Lenir, o governo argumentava que as empresas que prestam os serviços de transporte escolar não queriam se locomover nas vicinais por conta da chuva e da lama. Por outro lado, ela afirmou que há vicinais asfaltadas que também não recebem a assistência.

“A justificativa que eles estão dando é que tem o transporte e estão falando que a empresa não está querendo entrar nas vicinais porque está chovendo muito e por causa da lama, mas não é não. Isso não é justificativa para eles. Tem vicinais que são asfaltadas […] não tem desculpa de dizer que o transporte não está entrando porque está chovendo muito, tem muito buraco, e atola o transporte. Mas não são todas as vicinais. Se o transporte passasse pelo menos onde tem asfalto, já ajudaria muito”, pontuou.

As estradas e pontes das vicinais são constantemente alvo de denúncias dos moradores da zona rural de Roraima. Sendo um dos problemas da circulação de ônibus escolares nas regiões afetadas.

O que diz o governo

Questionada sobre a ausência de transportes escolares para atender a população, a Secretaria de Estado da Educação (Seed) informou no dia 1º de maio que o serviço de transporte escolar começaria a ser normalizado em todos os municípios do interior do Estado naquela semana.

A redação procurou a Seed novamente nessa terça-feira (17) para atualizar as informações, mas não obteve resposta.

Ainda no início de maio, a secretaria informou que os 600 veículos contratados por meio de 32 empresas terceirizadas para prestar serviço de transporte escolar já haviam passado pela vistoria do Departamento Estadual de Trânsito (Detran).

Os contratos estavam sendo assinados, e no dia 02 as ordens de serviço seriam expedidas.