Coluna

Porandubas nº 741

Foto:
Por: Gaudêncio Torquato
Categoria: Nacional

Abro a última coluna do ano com duas historinhas.

José Maria Alkmin, um dos maiores sábios mineiros, nunca perdia a tirada.

O eleitor chegou aflito:

– Doutor Alkmin, meu filho nasceu, eu estava desprevenido, não tenho dinheiro para pagar o hospital.

A matreira raposa tascou:

– Meu caro, se você que sabe há nove meses, estava desprevenido, calcule eu que soube agora.

Armado de admiração

Tenório Cavalcanti, udenista e adversário político de Vargas, foi ao Catete numa comissão de deputados. Andava nas manchetes dos jornais por causa de suas estripulias em Caxias, na base da “Lourdinha” (metralhadora) e da capa preta. Getúlio o cumprimentou, olhou bem para o volume do revólver embaixo do braço esquerdo, sob o paletó:

– Deputado, o senhor está armado?

Tenório ficou vermelho, mas não perdeu o bote:

– Armado de admiração por Vossa Excelência.

Esta coluna tentará fazer uma rápida leitura de 2021 sob o olhar de quem ainda acredita que o amanhã será melhor do que o hoje.

Boa leitura.

Critérios

O primeiro desafio que se apresenta a quem pretende fazer um balanço do ano é tentar responder à pergunta: que critérios usar nessa análise? Não sei. Vou usar apenas os eixos que se apresentarem no momento da escrita. “Pensar sem corrimão”, como ensinava Hannah Arendt. De maneira instintiva. Dessa forma, começo pelo usual: o ano foi ruim para milhões de pessoas, inclusive este que aqui está, e também valeu para outros milhões (em menor número), o que significa, foi positivo para muitos, inclusive eu. Explicarei.

Um sentimento de perda

No nosso interior, espraia-se um sentimento de perda. Algo foi embora. Fugiu. Escorregou de nossas vidas. Pequenas tochas de depressão, ondas de tristeza, um recolhimento forçado pelas circunstâncias. Um coração que deixou de bater no ritmo. Saiu de sua órbita. Uma perda civilizatória. Uma defasagem sem possibilidade de resgatar a parte da vida que se foi.

Passos atrás

Milhões estagnaram, perderam empregos e negócios, ou até deram passos para trás, nas ondas da pandemia, do fechar de portas, da limitação de atividades profissionais, exigência que se fez como estratégia para conter o novo vírus. Vidas em atraso. Vidas saindo de um território de certo equilíbrio – até porque sabíamos jogar o jogo do mercado – para adentrar em um espaço nebuloso ou em um terreno pantanoso. Sob essa ótica, houve uma parada na roda civilizatória. Uma sensação de patinação no gelo, porém sem sair do mesmo lugar.

Efeitos

Os efeitos apareceram em diversas direções. Para as crianças e os jovens, um refluxo grave em suas vidas, eis que o vácuo educacional ultrapassou o tamanho da idade lançando-os no fim da fila civilizatória. Será complicado retomar o tempo perdido, mesmo para aqueles que contam com ferramentas tecnológicas para enfrentar os efeitos. Para os profissionais, de modo geral, criou-se um tumulto inicial, com perda parcial da visão central e até a visão lateral. “O que fazer e como?” Para os servidores da saúde, uma intensa mobilização tomou conta de suas tarefas. Uma curva fora do ponto no planeta.

Um ano perdido

Dividem-se as visões nesse final de ano. Perdeu-se o ano? A velha lei de Lavoisier é tirada da gaveta: na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. E assim estamos combinados. Uns aceitam mais a lei, outros, menos. O fato é que nossas vidas mudaram. Quem disser, a minha vida não mudou, está tergiversando, forma de driblar a verdade. E agora, com a iminência de uma nova onda (quarta, quinta?) da pandemia, com a variante ômicron, a ideia de que o planeta está tumultuando os passos rotineiros de seus habitantes emerge com força.

Quem perdeu?

Alguns atores na passarela mundial perderam: aqueles que vaticinaram (isso mesmo, não confundir com vacinaram) contra as vacinas, incluindo o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, o brasileiro Jair Bolsonaro e outros com jeitinho de ditador. Perderam os grupos fanáticos, os torcedores da pandemia, aqueles que desacreditam nos postulados da ciência, os incréus, os doidivanas, os malucos, os que usam o sabão dos sistemas autoritários para limpar sua pele e sujar a dos outros.

Quem ganhou

Ganharam com a pandemia as farmacêuticas, que enchem seus cofres, os cientistas – infectologistas, epidemiologistas, estudiosos do fenômeno -, os profissionais da saúde, principalmente os grupos de vanguarda e da retaguarda que enfrentam o coronavírus 19, as autoridades governamentais que autorizam(ram) medidas de combate à pandemia, organizações planetárias de enfrentamento à doença, como a OMS, líderes e entidades da sociedade civil.

O mundo dividido

O mundo se dividiu. Países tomaram medidas restritivas, recuaram e agora voltam a reativá-las, outros demoraram a fazer o que tinham de fazer, enquanto os países pobres estão ameaçados de conviver com a mortandade por muito tempo. Olhando o território devastado no norte da África, do alto de um morro, o comandante do Afrika Korps, na II Guerra Mundial, o general Erwin von Rommel, não se conteve: “os pobres nunca deveriam fazer guerras”. Hoje, vemos os africanos sendo submetidos à guerra contra a pobreza, sem condições de conter o avanço da pandemia. Os ricos continuam se refestelando.

No Brasil, perde e ganha

Perdem no Brasil com a guerra contra a pandemia:

– o governo Bolsonaro, comandado pelo capitão presidente. Com destaque para os maiores perdedores:

– o próprio presidente

– o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello

– o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga

– os políticos, de modo geral, fazendo-se ressalva para os representantes das oposições

– os governantes de alguns Estados que relaxaram nas providências a serem tomadas;

– os grupos simpáticos aos detratores da ciência

Ganham na esteira da pandemia

– os membros da CPI da covid-19

– os políticos de oposição, principalmente aqueles que ganharam destaque no palanque da visibilidade

– os porta-vozes da luta contra a pandemia, especialistas, consultores, comunicadores e intérpretes na mídia

– os governantes que lideraram o processo de vacinação em massa

– os servidores da saúde, com destaque para os grupos de combate à pandemia

– as classes médias, conscientes, com destaque para os profissionais liberais

– a categoria artística, que expressou forte opinião em defesa da ciência

– a Anvisa e seus quadros, a partir de seu presidente

Lula e Alckmin

Não se mata uma identidade da noite para o dia. Identidade, do latim, idem, igual, semelhante. A identidade de um protagonista da política é igual à soma de sua história, com discurso, ações realizadas, maneira de pensar, maneira de dizer, maneira de ser. A identidade de Lula inclui toda o seu tempo de sindicalista, vida no PT e frases que pronunciou. A identidade de Geraldo Alckmin também agrega todos os minutos de sua trajetória. Vemos essas duas identidades, hoje, querendo apagar suas histórias ou mudar de feição. Falso. Água e óleo. Não se misturam. O tempo dirá ou desdirá esse axioma.

Apesar de…

Há uma regra na política: fazer possível o impossível. Se esta for a hipótese dominante, podemos aduzir: anjos e demônios sabem conviver na política, cada qual procurando ocultar para o outro as veredas de seu passado e de seu inferno…

No mais…

Tomo emprestado de Nietzsche a lição do seu profeta em “Assim Falou Zaratustra”, desejando a todos formas novas de caminhar em 2022:

“Novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga. Como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Não quer o meu espírito caminhar com solas gastas.”